segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Sombra de Pan

Sorrateiramente ele chega, quase sempre com uma palpitação discreta ou um pequeno tremor em qualquer parte do corpo. Se finjo não percebe lo, se o ignoro ele me balança, me faz dançar a sua música até eu perder o controle da minha razão, então eu sento no meu cantinho de sempre, e faço companhia a ele, tomamos um chá, jogamos um jogo mental meio macabro, ele sugere algumas doenças e eu rebato, justifico abusando do meu conhecimento, digo que é apenas mais uma crise, ainda que seja a segunda, terceira, quarta do dia, as vezes mais leve as vezes mais pesada, depende do dia. Depois que ele se satisfaz com minha atenção, ele vai embora, mas não leva com ele aquele medo profundo e intenso, aquela falta de garantia que não vai acontecer de novo, e de novo, e mais forte.

As vezes paro para pensar, como a vida era tranquila antes dele chegar, e me sinto culpada por reclamar de coisas bobas como uns quilinhos a mais ou não ter dinheiro para gastar com bobagens, é nessas horas que a gente aprender a valorizar coisas bobas como poder ir ao shopping sem ter que sair correndo no primeiro desconforto mental ou físico, porque basta um sapato apertado para que o medo de estar perdendo os dedos surja, basta uma picada de mosquito para render horas na internet pesquisando as milhares de patologias que causam manchas vermelhas, basta acordar resfriada para achar que tem alguma coisa errada com o sistema linfático, sem contar os desconfortos estomacais que outrora passavam desapercebidos, agora eles são apenas mais uma arma de tortura que "ele" usa para me desestruturar. Sem contar a tortura psicológica e a culpa. Várias vezes me peguei pensando o que eu fiz de errado, certamente a culpa é minha, minha fé deve ser pequena, eu devo ser fraca, logo que que sempre me senti tão bem com Deus, agora eu questiono minha fé, minha utilidade.Eu queria tanto passar a vida a limpo, eu certamente teria sido uma pessoa melhor, eu teria feito muita coisa diferente, não teria magoado tantas pessoas, ainda que eu nunca lembre de ter feito isso por querer. Eu teria me metido menos na vida dos outros, ainda que eu sempre tenha feito pensando que era bom, eu teria guardado meu coração, preservado mais minha imagem para não ter tanta gente me desejando mal, vai ver que isso conta. Eu não teria tentado fazer tanta coisa ao mesmo tempo, não me desdobraria em mim, não me estressaria por tão pouco, eu realmente faria tudo diferente. O nome dele é Pânico, ele muda a vida de tantas pessoas, ele acaba com os relacionamentos, ele afasta os amigos, ele acaba com os passeios, ele atormenta, ele transforma pessoas incríveis em coelhos assustados ao mero toque da sua flauta.

Hoje estou assim, assustada, acuada, confusa, não estou conseguindo usar minha fé para me livrar disso tudo, mas ainda que eu esteja sendo apenas uma sombra do que fui um dia, eu estou aqui, e ainda que minha fé pareça pequena, eu aprendi ao longo da vida, que é nesses momentos que nossa confiança tem que ser grande. Eu sei muito bem em quem confio, eu sei o Deus que eu creio e um dia isso vai passar, eu sei que vai.Talvez minha fé esteja mesmo pequena, mas minha confiança é gigante, e mesmo aqui debaixo, no fundo do poço, eu tenho um Deus que olha por mim. e isso o Pânico nunca vai tirar.

4 comentários:

Sebo das Galáxias disse...

Olá, que texto forte! Parece uma música vinda de uma banda como o Korn, por exemplo.
Emerson Lemes

Ana Catarine Mendes disse...

Seu texto foi muito bem escrito, deu para sentir grandes sentimentos durante a leitura!

Livros Que Li disse...

De vez em quando a gente precisa desses sustos pra descobrir que a vida realmente vale mais a pena do que nossos luxos, ambições pessoais e a fé é um dos aspectos importantes também. Sem fé, seja em si e/ou em Deus, é ainda a coisa que mais nos move até hoje.

xoxo <3

ademir disse...

Amei !muito intenso vc conseguiu expressar tudo q eu sinto